Quem escolhe pertencer merece ser acolhido

Por Clarissa Barroso e Evânia França
Advogadas e sócias-fundadoras do BFA Direito Migratório

Há algo de profundamente humano no ato de migrar. Quem deixa seu país carrega consigo não apenas malas e documentos, mas um projeto de vida inteiro — a decisão de construir raízes em outro lugar, de aprender uma nova rotina, de pertencer. É um ato que exige coragem, resiliência e uma confiança silenciosa de que o destino escolhido vai, ao menos, respeitar essa escolha.

Nos últimos anos, essa confiança tem sido testada em muitos lugares. E 2025 deixou isso particularmente evidente.

Ao longo do ano, 37 voos fretados pelo governo dos Estados Unidos desembarcaram no Brasil, trazendo de volta 3.526 brasileiros deportados. Homens e mulheres que haviam construído vidas do outro lado do mundo — que trabalhavam, criavam filhos, sustentavam famílias aqui e lá. O número representou quase o dobro do registrado em 2024, quando foram deportados 1.648 brasileiros. Por trás de cada um desses números há uma história interrompida, um projeto de vida desfeito de forma abrupta.

Do outro lado do Atlântico, o cenário também se transformou. Em Portugal — país que por décadas acolheu brasileiros com a familiaridade de quem compartilha língua e história —, as queixas judiciais contra crimes de ódio voltados a imigrantes quintuplicaram entre 2019 e 2024, segundo relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância. E em abril de 2026, uma nova lei ampliou de cinco para sete anos o tempo que um brasileiro precisa viver legalmente em Portugal para pedir a naturalização. Para muitas famílias que haviam planejado sua vida com base nas regras anteriores, a mudança chegou como uma surpresa difícil de absorver.

Seria simples, a partir daqui, olhar apenas para fora. Mas atuamos no Brasil há mais de doze anos — e seria desonesto da nossa parte não reconhecer que o caminho do imigrante dentro do nosso próprio país também tem tropeços que merecem atenção.

O estrangeiro que chega ao Brasil disposto a cumprir cada etapa do processo migratório se depara, com frequência, com um sistema que não facilita essa disposição. As vagas de agendamento na Polícia Federal nem sempre estão disponíveis com a agilidade que a situação exige. Os processos de naturalização, que a legislação determina concluir em 180 dias, costumam se estender por períodos bem mais longos — sem que o interessado receba, necessariamente, uma explicação clara sobre os motivos ou uma previsão de quando terá uma resposta. A informação, quando existe, nem sempre chega de forma acessível a quem mais precisa dela.

Não se trata de uma crítica às pessoas que trabalham nesses órgãos. Trata-se de reconhecer que um sistema pensado para controlar nem sempre foi igualmente pensado para acolher — e que essa lacuna tem um custo humano real. O imigrante que não encontra informação clara não desaparece: ele fica sem saber o que fazer, vulnerável a orientações equivocadas, exposto a riscos que uma boa comunicação institucional poderia evitar.

É exatamente aí que o acompanhamento jurídico especializado faz diferença. Não como substituto do Estado, mas como o elo que garante que ninguém percorra esse caminho sozinho — que alguém segure a mão de quem está navegando por um sistema complexo, explique o que está acontecendo, antecipe os próximos passos e esteja presente quando as coisas não saem como deveriam.

A Lei de Migração brasileira de 2017 é, no papel, uma referência. Consagra a dignidade da pessoa humana, repudia a deportação coletiva e garante direitos independentemente da situação migratória. São princípios que o Brasil defende com orgulho. O desafio — aqui como em tantos outros lugares — é fazer com que esses princípios se traduzam na experiência cotidiana de quem depende deles.

Quem escolhe pertencer a um novo país faz isso sabendo que haverá dificuldades. O processo nunca é simples. Mas há uma diferença entre a complexidade natural de construir uma nova vida e a sensação de que o sistema não foi feito para receber você. A primeira é parte da jornada. A segunda é algo que pode — e deve — ser melhor.

Ao longo de mais de treze anos acompanhando pessoas nesse caminho, aprendemos que o que mais faz diferença não é apenas o conhecimento técnico — é a certeza, para quem está do outro lado, de que não está sozinho. Que há alguém que conhece o caminho, que vai explicar cada etapa, que vai estar lá quando o processo travar e quando a resposta finalmente chegar.

É isso que acreditamos que todo imigrante merece. Em qualquer país. Inclusive no nosso.


Clarissa Barroso e Evânia França são advogadas e sócias-fundadoras do BFA Direito Migratório, escritório boutique especializado em mobilidade internacional com atuação no Brasil, Portugal, França e Espanha.

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